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Episteme psicanalítica

18/12/2010

Episteme psicanalítica

Sobre o saber, da psicanálise, entre a ciência e a religião

… em psicanálise não se pode convencer, somente convencer-se.

Sándor Ferenczi, 1909.

O último psicanalista

“O ano é 2204. Era uma senhorita de aproximadamente 25 anos. Desde criança vivia queixando-se de uma constante insatisfação com suas tortuosas realizações no mundo, como também não perdia a oportunidade de indicar as falácias das realizações de todos aqueles que lhe eram caros. Jamais manifestara qualquer preocupação sobre saber de onde vinha ou para onde ia; haviam muitas ‘dificuldades conjugais’ e ela não conseguia manter um namorado por mais que um final de semana. Homem nenhum jamais a satisfizera. Desde que saíra da adolescência, passou a apresentar comportamentos tais que começaram a preocupar seus pais, como desde uma constante falta de atenção quando lhe era dirigida a palavra, até falhas na memória e no comportamento ‘graves’, tais como sair de casa sem vestir roupas adequadas. Um pouco mais tarde e de repente passou a ter crises violentas de espasmos crônicos, semelhantes em quase todos os aspectos às antigas crises epilépticas, doença praticamente erradicada. Por fim, passou a sofrer também de um pânico terrível, acompanhado de taquicardia e taquipsiquismo, relacionado a uma intuição intrusa de que sua morte é eminente. Isso acontecia pelo menos uma vez todos os dias. Com freqüência sonhava que lhe nascia um filho morto.

“Com seus pais, ela já haviam percorrido toda a via antes sacra das ciências das moléstias mentais. Consultaram neuropsiquiatras, neurologistas, neuropsicólogos, recorreram ao laboratório de reprogramação neuromental, e tudo o mais que a ciência havia disponibilizado às tais moléstias. Todos os modernos métodos experimentados se mostraram eficazes apenas temporariamente: neurohipnopersuasão, intervenções químicas, intervenções neuroinfomnemicas – como a caríssima e sofisticada neuronanocirurgia, efetuada por nanorobôs, controlados remotamente, enquanto alteram a composição e a forma de várias moléculas dentro de neurônios selecionados e identificados previamente.[1] Nada parecia solucionar os problemas da jovem dama, e os especialistas que deixava para trás em sua peregrinação eram quase invariavelmente – não sem satisfação por parte dela – remetidos à sua impotência diante de um caso tão estranho, mas da qual logo se safavam, retornando a seus jalecos brancos e culpando suas máquinas ainda não suficientemente sofisticadas.

“Até que, certa feita, seus pais ouviram falar sobre um homem, muito velho, eremita numa montanha próxima daquela cidade, que tinha a fama de, no passado, ter curado coisas como tais ‘esquisitices’. Não sabiam nada sobre as credenciais científicas do homem em questão, e tudo o que puderam colher de informação a respeito dele eram boatos e fragmentos de antigas estórias, como os restos de um sonho ao acordar – não menos esquisitos do que as esquisitices de nossa jovem dama. Alguns diziam que ele tinha mais de 300 anos. Os pais da senhorita, já desesperados e contra todas as exortações dos zelosos cientistas, resolveram levá-la à montanha e tentar ouvir do velho ancião o que ele poderia dizer a respeito de sua filha.

“Subiram por estradas esburacadas, caminharam por entre a selva densa, até chegarem, ao final do dia, à entrada de uma sinistra caverna, cujos contornos não deixavam de lembrar os lábios de uma vulva. Lá dentro estava bastante escuro, mas uma pequena fogueira produzia sombras sinuosas nas paredes. Centenas de antigos livros espalhados por todo canto e, lá no fundo, uma poltrona parecida com uma cama se estendia ao lado daquele homem que, com seus longos cabelos brancos olhando fixo para as sombras na caverna, como que a decifrar-lhes o enigma, levantou-se de sua poltrona apressado para recebê-los. Ouviu os pais falarem da filha sem dar-lhes a atenção que esperavam, enquanto esta, curiosa, circulava pelo ambiente que parecia provocar suas lembranças. E solicitando que os pais se retirassem ao mesmo tempo em que convidava a senhorita a deitar-se naquilo que chamou de divã, respondeu, ao ser questionado sobre qual método seria empregado: psicanálise, disse ele, eu sou o último psicanalista…”

Esta cena – um tanto caricatural e talvez cômica – não é uma profecia nem mesmo uma previsão baseada nos cálculos de alguma probabilidade. Muito menos é o testemunho de adesão a uma visão de inspiração huxleyana do “futuro” – embora o famigerado “soma” não nos esteja muito além do alcance. É apenas uma pequena estória para introduzir e ilustrar, ao mesmo tempo em que provocar e fazer pensar, nos problemas que a psicanálise enfrenta ao tentar se afirmar como prática legítima no mundo contemporâneo, supostamente dominado pela ciência e pela técnica.

Se há um “psicanalista do futuro”, como se tem pretendido de uns tempos para cá, se a psicanálise pretende se afirmar e se firmar como clínica do sujeito e da cultura, Não poderá faze-lo senão diante de outros, e também, principalmente, de Outros. Ela precisa e deve fazer frente às questões colocadas a ela pelos outros saberes, especialmente aquele que pretende ser o saber sobre os saberes. Mas pretende apenas, pois, como sabemos, não há metalinguagem. Mais então que simplesmente prestar contas – que não passaria de um circuito neurótico -, trata-se de abrir um dialogo com aquilo que, além da clínica e do “boca-a-boca” que porventura derive daí, talvez possa lhe fornecer algum suporte externo ou ainda, quiçá, receber dela, da psicanálise, alguma orientação, donde ser necessário o ato.

Trata-se, frente aos riscos de assimilação, corrupção, ou mesmo extinção desse discurso único na modernidade capaz de suportar o real próprio da experiência que então se define como psicanalítica, de tentar garantir seu lugar, não por se submeter ao discurso que ordena os espaços, mas por abrir seu campo na selva densa em que facilmente se perde ou se escamoteia o desejo. Enfim, fazer-se presente. Caso contrário, corre-se o risco de que a psicanálise se torne, a curto prazo, o reduto sagrado de ovelhas dispersas pela erosão das grandes instituições do sentido, e a longo prazo um fóssil ininteligível na história da filosofia, onde até mesmo as transformações por ela causadas no mundo, louvadas em outros lugares, terão sido sistematicamente esquecidas: e por que não, ao final da análise?

Que outros e Outros são esses? Eis o assunto deste breve e errante ensaio.

Episteme

O simples fato de estar neste momento servindo-me, para tecer o presente texto, de uma peça sofisticada da tecnologia popular moderna – um laptop, como se diz, embora não seja um que esteja nas laps do top e nem no top de minhas laps – além de toda uma avalanche de entulhos, desde martelos aerodinâmicos a estações espaciais, que é despejada diante de nossos olhos diariamente, testemunha, junto ao “além”, a eficácia da ciência galilaica, ou mesmo pré-socrática, ou ainda adâmica; temos em vista esse tronco de saber mais que suposto, simulação no simbólico das lituras do real, geralmente identificado e relacionado às ciências físicas, ao materialismo, ao positivismo lógico e experimental, e etc.

Sei que sei, porque digo o que faço, como faço e para que o faço, no sentido de alcançar o resultado que desejo. O mestre dá um leve sorriso de canto de boca na propaganda televisiva e diz que não é ele, e sim você, a partir de agora um consumidor, quem deseja: o produto está vendido. Evidentemente não é tão simples assim – uma bela e simples equação pragmática – e não bastam a parafernalha eletrônica, neologismos cientificomórficos gregos, siglas com as iniciais maiúsculas de opacas expressões inglesas, ou pílulas, para garantir o que a ciência produz como saber. Não teríamos ai ainda saído completamente da magia e da feitiçaria.

Mas não se deve subestimar o sorriso do mestre. Se para nós a questão não é tão simples, tal equação pragmática é suficiente para que a ciência e tudo aquilo que vêm sob sua égide – mesmo que ocupando apenas um lugar de instrumento de uma ideologia ou ética mais ampla que deve ser apreciada de outra forma, mas para a qual a população também está inclinada por razões que nos chegam de todos os lados – conquiste, e também não temos porque insurgirmo-nos contra isso, a credibilidade social necessária a sua darwiniana sobrevivência.

Evocamos um velho termo, um significante carregado de história, em nosso título: episteme. Todos sabem o que isso quer dizer. Como posso saber que sei aquilo que penso saber? É essa a pergunta que norteia todo o engenho filosófico quando se trata aí do que identificamos com o termo epistemologia. Eis também aí onde – ninguém duvidaria – a psicanálise é, sem dúvida, mais manca, se comparada, por exemplo, à física, no que para ela, para que sobreviva como práxis, também é necessária a tal credibilidade social e o reconhecimento e respeitabilidade das instituições que dirigem o curral.[2] Função que a moderna filosofia da ciência tem cumprido bem em relação à ciência, assim como políticos e economistas têm cumprido a deles a respeito do mercado, ou seja, só depois.

Mas como posso evocar um saber para justificar outro saber, sem que para o primeiro seja também necessária a evocação de um outro? Assim nossa pergunta se desdobraria em espelho, remetendo-nos ao infinito ou mesmo ainda ao infinitesimal, como numa cadeia significante, sempre na esperança de depararmos-nos com um primeiro motor imóvel aristotélico, um big-ban, um nome-do-pai ou ainda, quem sabe, podermos como são Tomé – esse primeiro cientista cristão – pôr o dedo nas chagas do Cristo ressuscitado? De uma forma ou de outra, Deus, vivo ou morto, não nos abandona tão facilmente.

Acrescente-se a isso que, mais que a falta francesa, mas não sem relação com ela, que a psicanálise seja manca, deve-se antes lembrar aqui de Jacó, não exatamente o pai de Freud, mas daquele que tendo lutado com um anjo para conquistar sua benção, teve a perna ferida e seu nome mudado para Israel, onde voltamos exatamente aos pais de Freud, que lutam com Deus. De Signorelli Freud não se lembra, nem se esquece.

Pois não é outra coisa o que busca a discussão epistemológica senão aquilo que fazemos circular com o nome de ponto de basta. O homem, desde Adão – que me seja perdoada a redundância –, desde que primeiro comeu um fruto de conhecimento, sempre se questionou sobre a legitimidade de seu saber, e este parece ser um elemento fundamental no processo que impulsiona seu avanço. Trabalhou-se muito. O antropomorfismo e o animismo antigos agora prestam serviços à arte ou se exilam na loucura. Tudo parece ter alcançado um porto relativamente seguro com essa ciência que passou a se impor mais firmemente a partir do século XIX, impulsionada pelo assim chamado “materialismo”.

Também não se deve pensar que os homens em outros tempos não pensavam também ter encontrado um “descanso epistemológico” em suas próprias formulações. A revolução dita copernicana, foi constatada como tal só depois, muito depois. Esse descanso é sempre relativo, sendo perturbado em muitos momentos quando as coisas simplesmente não respondem mais à observação.

Basta, em nossos dias, olharmos para o universo dentro de uma casca de noz para vermos quão fantásticas podem ser as engenhocas matemático-intelectuais que nebulam e competem por um lugar ao sol, quando respondem a um mal-estar paradigmático, chamado, na construção do ideal que revela sua falta, de “teoria total”, isto é, sem manque. Sem contar que também deve-se incluir nos cálculos a questão sobre se essas idéias satisfazem ideais de poder e amor, por parte de alguns eleitos que, por sua feita, podem decidir, pelo menos por um tempo, o que deverá prevalecer. Mas por aí desviaríamo-nos por demais. Teríamos mesmo conseguido erradicar nossa primeira garantia de crianças do pensamento? As linhas devem ser realmente muito tortas.

Eis um fato: para as ciências ditas humanas, num sentido mais “solto” do termo, um tal descanso jamais poderia ser oferecido honestamente. Dificilmente vemos um físico muito preocupado com questões epistemológicas: “problema dos filósofos, eles que nos entendam!” Aqueles que pretendem constituir ciências sobre objetos que estejam num nível bem diferente de complexidade que aquele da física – as ciências humanas, por exemplo – como podem eles não questionar o que pensam saber?

Para a psicanálise, (ciência natural para o desejo de Freud, conjectural para Lacan) já podemos formulá-lo com uma boa clareza: como não considerar o desejo de Freud, o desejo de Lacan, o desejo do analista? O desejo daquele que escreve estas linhas? Pois é justamente a não exclusão do desejo, isto é, tomar por objeto o dejeto da com-ciência, que faz para a psicanálise a sua diferença. Um físico dificilmente se preocuparia com o desejo de Newton, bastam as fórmulas que resultam da operação desse desejo. No desejo talvez encontrasse inspiração, ânimo, mas isso seria de outra ordem. Nem devemos esperar que um behaviorista se pergunte sobre o desejo de Skinner, exuberante em sua comunidade-laboratório, amostra grátis da grande caixa que o gerou. O que em nada lhe tira o mérito: a biologia também é outra coisa.

Mas o que faz uma ciência? Mantenhamos alguns limites: devemos partir do princípio de que, entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido, há um “aparato cognitivo” composto de pelo menos três elementos: cérebro, órgãos dos sentidos, e linguagem. Eis o ponto certo onde os epistemólogos podem reunir-se para um café, mesmo que os nomes variem um pouco. Mas até mesmo esses três elementos podem ser considerados objetos e, tomando-os em suas articulações, tem-se como objeto algo semelhante, no sentido bíblico, ao próprio sujeito que conhece. Ou seja, somos todos argila do mesmo solo, lavrada pelas mesmas mãos, segundo um mesmo projeto. Em algumas psicologias e na psicanálise, padece-se então de um problema que é o fato de o sujeito e o objeto do conhecimento coincidirem em complexidade e semelhança – diferentemente, por exemplo, do que acontece na biologia, entre um ser humano como sujeito do conhecimento e uma barata como objeto.[3] Será sujeito e sujeito? Se não, quem é o objeto? Pode-se também assumir diferentes posições em relação a esse problema.

Pode-se, por exemplo, assumir que o sujeito é o cérebro, mas isso se refuta muito simplesmente imaginando se haveria um sujeito no cérebro retirado de um feto e posto num tubo de ensaio durante 20 anos, com o necessário para sua sobrevivência e crescimento natural, sem qualquer “input”. Nos cálculos do sujeito, o que se in-puta são as variáveis. Os elementos da linguagem são o que dá sentido, isto é, sujeito, à ação da maquina de sonhar. Não há sonho sem sujeito. E se essa linguagem é só comportamento verbal, não se ganha mais do que quando a gravidade são só comportamentos gravitacionais [sic!]…

A epistemologia é, em suma, justamente o campo de reflexão filosófica que procura, de um jeito ou de outro, minimizar as distorções no saber do sujeito a respeito de seu objeto, que são causadas pelos três termos que compõem o instrumental mínimo de seu aparelho cognitivo – ou, pelo menos, aperfeiçoá-lo. Isso leva mesmo alguns a crer em algo tão extremo quanto na possibilidade de que não haja ciência que não ciência do próprio aparelho cognitivo, o que faria de toda ciência uma psicologia, tanto quanto tal aparelho tem algo a ver com seu objeto. No campo psicanalítico, não se pode evitar o questionamento epistemológico, mas pelo contrário, só se pode abrir suas feridas. Há a teoria, que só pode ser sobre um objeto, e há a ação do analista, que, desde a posição de objeto, visa, ao contrário, a emergência de um sujeito.

A cientificidade da psicanálise

Como todos sabem, Freud sempre se inclinou a defender o estatuto científico da psicanálise, e a última coisa que se pode dizer é que sua invenção aconteceu à revelia daquilo que, em seu tempo e ainda hoje, era tido como modelo a ser seguido por qualquer ciência, especialmente uma que fosse jovem e ambiciosa. A ciência natural lhe ofereceu esse modelo, e seu discurso está repleto de metáforas ou referências extraídas da física e da biologia, além de reflexões e explicações a respeito de seu método e sua garantia, isto é, reflexões epistemológicas.

“Deve-se observar os fenômenos até que falem por si” – o dito atribuído por Freud a Charcot lhe agradava deveras. O problema surge justamente do fato de que o objeto da psicanálise realmente fala. Imagine-se a surpresa de um astrônomo se um dia a lua abrisse a boca e lhe dissesse: “ei, queres mesmo saber porque me ocupo em dar voltas em torno da terra?” Assistiríamos à ruína da física assim como a conhecemos. Talvez o dissesse ao astrônomo que é porque é assim que ela, lua, goza. Isso, talvez, fizesse dela objeto para nós, psicanalistas. Mas, e se ela estivesse mentindo? Ou pior, se com isso estivesse apenas querendo nos seduzir, se fazendo parecer a um objeto que crê nos interessar?

O que não impede que essa lua já visite com uma certa freqüência nossos divãs, quando aqueles que pensam nos dirigir a palavra passam a justificar tal ou qual ato ou predicado de seus eus nos termos de um discurso articulado que não é outro senão aquele de quem tem ouvidos suficientemente encerados para ouvir o que a lua diz…! O que não é o mesmo que aproximarmos nosso discurso da suposição de uma racionalidade, de um nous, no próprio movimento do real.

A psicanálise inventada por Freud não é um obscurantismo que só adquire um sentido a partir dos restos de significação que a decantação racional do mundo deixou atrás de si, mas um esforço no sentido de organizar os dados da experiência num organismo conceitual coerente e que, vinde e vede, deixa margens para desenvolvimentos futuros.


Sabe-se, no entanto, que ao contrário do que ocorre com as ciências naturais, onde a simplificação é bem vinda,[4] esse organismo conceitual tende a multiplicar-se indefinidamente no próprio movimento do desdobramento teórico da experiência. Muitos dos termos e conceitos usuais no discurso psicanalítico são mesmo retirados de ditos de analisandos que se tornaram casos referenciais na literatura em questão, ou ainda de formulações e observações ocasionais, como por exemplo, o fort-da, consagrado para sempre além do princípio do prazer, ou ainda neologismos, como êxtimo ou sinthome, do período joyciano de Lacan, que são fruto da experiência, por um lado, e por outro, são extremamente fecundos para recobrir a mesma experiência.


Isso se deve, em parte, ao fato acima mencionado de que a matéria bruta com que em sua prática lida o psicanalista, essa matéria fala – o que de pronto nos introduz definitivamente num campo que pode ser qualificado, não sem reservas, de hermenêutico.[5] Em outros termos, nos introduz no campo da mentira e da verdade, ou melhor, no campo do sentido e da significação. Menos isso – a fala – e, por exemplo, poderíamos apenas catalogar os denominadores comuns dos padrões etológicos de uma espécie dada, inclusive considerando aí a fala, como numa caricatura de psicologia junguiana, ou mesmo recairmos numa submissão à biologia, como no caso do behaviorismo, mais evitando que solucionando o problema.

Mas se essa multiplicação conceitual deve ser tomada como uma dificuldade, na medida em que aumenta enormemente o corpus teórico que se deve percorrer e “dominar”, além de tornar problemática sua difusão e transmissão, por outro lado deve-se ver nela o resultado do fato de que na psicanálise, lidamos com a linguagem da vida, do cotidiano, de cada um. Isto é, por mais que elaboremos sobre nossa experiência um corpus teórico no qual possamos nos encontrar e fazer refinar nossa compreensão e nossa prática enquanto comunidade, não se trata, nesta prática, de “impor” tal teoria àquele que, na verdade, deverá, ele sim, elaborar o seu saber sobre o seu desejo. É a um “médium” desses saberes que a teoria psicanalítica responde, tendo como pontos de referência a experiência daqueles que se destacam nisso, e cuja experiência inaugural é a de Freud.

Dizendo de outro modo, não ensinamos “teoria psicanalítica” aos analisandos, e nem esperamos os efeitos da análise de algum “dever de casa”. O saber se reconstrói em cada análise, com as palavras e a entonação própria de cada um. Pois bem: isso se reflete na teoria. Lacan se sensibilizou com os problemas levantados por essa multiplicação, e pretendeu poder minimizar os equívocos da transmissão através do que chamou “matemas”. Escrituras mudas, tocando o real com o simbólico, fina flor da epistemologia lacaniana, como fórmulas matemáticas, mas cujo manuseio, em todo seu alcance, exige, no próprio ato, a recriação do saber psicanalítico em seu rigor. Trata-se aí de uma aposta.


Uma outra aposta foi formulada pelo próprio Freud e não deixamos de reencontra-la freqüentemente, como uma “profecia”, em todos os lugares em que se crê estar-se tomando de volta para as neurociências o tempo perdido com o “freudismo”:[6] a de que todos os processos psíquicos então descritos por ele um dia seriam explicados em termos neurofisiológicos. Ora, muito mais que uma confissão de impotência da teoria psicanalítica, deve-se ver nisso uma genuína confiança no fato de que, além de todas as turbulências, a psicanálise atravessaria bem a “prova final”. Pois Freud jamais se afastou ou afastou a psicanálise das neurociências. Proclamar independência não é o mesmo que cortar relações. Trata-se aí de uma confiança no próprio rigor, e cujas recentes novidades da pesquisa neurocientífica só nos fazem pasmar!

Mas eis que surge e urge um problema cabeludo de primeira grandeza. Como, no contexto das várias comunidades psicanalíticas, definir aquilo que é ou não um avanço das proposições fundamentais, visto tratar-se de um ambiente onde as paixões bélicas são facilmente inflamáveis no campo das estruturas de relação pai/mãe-filho(a) que se mostram tão pregnantes em sua organização? E porque são tão pregnantes justamente aí? Deveríamos nos render ao antigo ditado popular de que “em casa de ferreiro o espeto é de pau”?

Nenhum astrofísico, hoje, se diria newtoniano e rejeitaria toda a elaboração da teoria einsteiniana da relatividade, em favor de preferências subjetivas e estéticas, como o faria um psicanalista, por exemplo, que pode simplesmente classificar Jung de místico, ou mesmo Lacan de verborrágico, e assim abster-se do estudo de suas obras. Ou ainda, que este psicanalista tenha sido analisado por um kleiniano, e assim sua dívida se estruture para com essa escola, ele a defenderá com unhas e dentes contra os lacanianos, por exemplo. Dessa forma, cada sujeito ou grupo pode seguir em seu próprio monólogo tranqüilamente. Temos um outro ângulo a partir do qual devemos colocar nossas interrogações.

A princípio, portanto, tracemos dois vetores – que não só decorrem das tendências atuais no pensamento psicanalítico como também as sustentam:

De um lado, uma tendência à redução biológica, dominante no mundo anglo-americano, cuja matéria privilegiada é o cérebro humano e, portanto, se entrelaça às neurociências. Nessa via, busca-se corrigir os “insights” freudianos, expressos num jargão psicológico, pelos novos dados revelados pelas neurociências. Ora, ressaltar a importância do que está em questão em uma tal redução, isto é, o problema da relação corpo-mente, para justificar o empenho a ela dedicado, nem é mesmo necessário, mas devemos salientar que no estado atual das coisas e por diversas razões, especialmente o desconhecimento de tudo o que se fez a partir do ensino lacaniano, o problema não parece estar bem colocado. De qualquer forma, os avanços nesse campo podem sem dúvida ajudar a solidificar as bases teóricas da psicanálise, na medida em que estas se estendam a um “objeto” mais seguro para os órgãos dos sentidos.

Por outro lado, um acento enorme é, grosso modo, colocado sobre a relação do sujeito humano com a linguagem e o gozo, que o cria e dilacera, e cuja matéria privilegiada é a palavra e as relações de significação entre os homens. Evidentemente, trata-se aí de toda a “reforma” lacaniana, dominante no mundo euro-latino, que do “imaginário” cientificista para o estruturalismo e a lógica, opera um verdadeiro deslocamento das bases epistemológicas da psicanálise. A maior proximidade da matéria em questão com aquilo com o que o analista esta fadado a lidar em sua prática talvez seja a causa e a responsável por um maior aprimoramento clínico na vertente em questão, enquanto o ritualismo da tradição ipeísta se caduca.

Lacan faz uma verdadeira cirurgia de transplante de corpo. Onde havia um corpo deficiente e incapaz de agir, ele coloca outro, novinho em folha, preservando a cabeça. Porém, muitos que nisso se empenham, parecem, muitas vezes, desconhecer ou simplesmente fazer pouco caso de uma fundamentação epistemológica mais segura ou clara para seu saber, externa ao próprio discurso e a experiência psicanalítica, visto que o estruturalismo e a lógica não parecem responder a todas as necessidades que se impõe diante de uma crítica mais dura. E pior, algo parece ficar na sombra, um osso duro de roer, algo que muitas vezes trás a marca de um parentesco quase execrável com o que em outros lugares pode-se chamar de “sagrado”. Trata-se aí do que se percebe de mais claro no “mal-estar” institucional que enfrenta todos os dias a escola lacaniana. Uma fatalidade gnóstica não é a melhor solução. Os corpos envelhecem, e talvez, se ainda queremos preservar a “cabeça” da psicanálise, devemos ficar de olho, pois pode ser necessário ainda um novo corpo.

É muito fácil verificar que ambos os acima chamados vetores já se encontram em tensão na obra de Freud, que jamais quis erigir seus conceitos como conceitos definitivos ou dogmas. Mas há mais o que se extrair daí. Refletem, também, a ambigüidade epistemológica de uma ciência, neste caso a psicologia, no sentido grego dos termos, que dispõe de dois caminhos para alcançar seu objeto.

Num deles, tem-se a opção de colocar esse meio quilo de matéria mais complicado do universo, o cérebro, dentro de um tubo de ensaio e assim poder observa-lo, nomear seus movimentos e pequenos detalhes, e as conseqüências desses movimentos e pequenos detalhes no restante do organismo e daí ao ambiente. No outro, não se pode colocar tal cérebro dentro de um tubo de ensaio. Pelo contrário, só se pode olhar para ele “virando-se os olhos para dentro”, isto é, sendo nele, ou ouvindo-o.

No primeiro caso, as conseqüências teóricas são termos como “neurônios”, “sinapses”, “neurotransmissores”, etc. Termos inequívocos que nomeiam pedaços bem delimitados de matérias e suas relações com outros pedaços de matéria. No segundo caso, observar a atividade do próprio cérebro ou testemunhar o que dessa atividade chega a nossos tímpanos como ondas sonoras, tem como conseqüências termos como “sentimento”, “pensamento”, “desejo”. Termos cheios de ambigüidades, equívocos, mas inevitáveis quando estamos diante de um sujeito falante, de um parlêtre, isto é, diante de um cérebro cujas sinapses foram orientadas pela sua relação com a linguagem que lhe é externa, e não de uma ameba, um besouro, ou um rato.

Voltaremos a isso. Por ora, cumpre lembrar que Freud tentou seguir o primeiro caminho, desde sua formação médica em neurologia culminando no trabalho que permaneceu desconhecido do público até pouco antes de sua morte conhecido como Projeto para uma psicologia científica, ou “psicologia para neurologistas”, e que traduz seu esforço em explicar os problemas colocados pela clínica em termos neurocientíficos.


Em 1895 ele não dispunha de microscópios eletrônicos ou máquinas de tomografia para aperfeiçoar suas observações sobre o cérebro, o que não o impediu de duplicar seu modelo numa linguagem psicológica, isto é, tomar o segundo caminho, e assim fazer nascer a psicanálise, introduzindo uma modificação radical na questão, uma modificação ética que impossibilita a psicanálise de se alinhar à ciência, enquanto esta mantiver forcluído o nome-do-pai.[7]

Pois o outro lado de tal exceção ao método, é a forclusão do sujeito, isto é, justamente daquilo que a psicanálise não pode perder de vista. Onde isso era, o eu deve advir, e onde era o cérebro, o sujeito deve assumir.

A infalsificável irracionalidade da ciência

Diz-se também que o discurso psicanalítico é circular, uma engenhoca intelectual irrefutável, que explica pela explicação. Um bom exemplo dos motivos dessa crítica se encontra na interpretação de um sonho que está em algum lugar na Traumdeutung. A sonhadora, que punha em dúvida a tese de Freud de que os sonhos são realizações de desejos, sonha que passava alguns momentos prazerosos junto a alguém que, na realidade, só poderia lhe ser desprezível, argumentando que nunca desejaria coisa tão horripilante. Ao que Freud replica que o desejo que o sonho realiza é o desejo da sonhadora de que ele, Freud, esteja errado em suas teorias. “Como argumentar com um sujeito assim?!”, pode justificadamente exclamar e esbravejar Sir Popper.

Nisso tocamos naquilo que este último considera ser o critério racional de validade de uma teoria ou proposição que mereça receber ao menos a atenção e consideração da comunidade científica: a possibilidade de ela ser falsificável, e quanto mais possível o for, maior será sua relevância para a ciência. Nota bene: ela deve ser, após infindos porem saciáveis testes, ainda falsificável, mas não falsificada. Uma teoria pode ser científica, e mesmo assim ser um erro, ao passo que outra pode estar correta, imune à crítica, mas não ser científica.

Tomemos uma ilustração trivial: (1) todos os planetas giram em elipses em torno de estrelas, e (2) a terra gira em elipse em torno de uma estrela.

Vê-se que a primeira afirmação é mais passível de ser falsificada que a segunda justamente pelo fato de que pretende uma universalidade. Se por algum acaso um dia descobrirmos um planeta que não gira em elipse em torno de uma estrela[8], isso tornará falsa a primeira afirmação, mas não a segunda. A primeira terá de ser relativizada, reelaborada, até mesmo aperfeiçoada, de preferência, enquanto a segunda poderá permanecer intacta. Mas se nunca encontrarmos um tal planeta, ou enquanto não encontramos, a primeira afirmativa é mais importante porque nos fornece uma apreensão mais ampla que, inclusive, pode nos deixar prevenidos quanto ao que podemos buscar e encontrar com a pesquisa científica, isto é, permite maiores previsões.

Mas tomemos outros exemplos: (1) às vezes chove, e (2) chove porque Deus quer. Ora, nenhuma dessas afirmações é refutável. Às vezes chove, sem dúvida, e que seja pela vontade de Deus, replicar dizendo “mas são reações químicas!” pode ser respondido com um “é assim que Deus faz!” até chegarmos ao acima referido “big-ban”, sem podermos provar ou sequer imaginar que às vezes chova, sem que isso seja da vontade de Deus. Portanto, uma afirmação irrefutável pode até ser verdadeira, mas jamais seria científica. Eis numa breve síntese do enquadramento racional pelo qual Popper faz passar toda teoria que pretenda usufruir da respeitabilidade do discurso científico.

Ora, qualificar a psicanálise de pseudo-ciência irrefutável só pode fundamentar-se numa leitura equivocada e numa compreensão distorcida do pensamento psicanalítico. Popper, admirador juvenil do extinto Alfred Adler e sua “psicologia individual”, baseou sua crítica apenas no pensamento deste e na caricatura do pensamento de Freud. Algo semelhante a achar Darwin um “louco” porque crê que “o homem veio do macaco”. Nenhum psicanalista crê que um sujeito desenvolveu tal ou qual sintoma neurótico por causa de seu complexo de Édipo. E se ele não desenvolveu qualquer sintoma neurótico, também é por causa de seu complexo de Édipo. Ora, nesse equívoco já se revela o “x” e o “y” da questão. “Complexo de Édipo” é apenas um nome dado a um momento lógico de ruptura e de articulação entre o desejo e a lei na vida dos sujeitos, momento privilegiado, que dá sentido ao que já foi, mas de cujas conseqüências não se pode ter muita idéia, justamente porque o sentido do que se passou, dependerá do que ainda há por vir. Não se trata de mistério, mas de linguagem.

Destaquemos aí dois aspectos do dito equívoco: em primeiro lugar, os fatos do sentido, isto é, os fatos psicanalíticos, estão sempre na dependência da próxima palavra. Como dissemos antes, a psicanálise é manca, não há ultima palavra, e o que quer dizer a primeira, ainda dependerá da próxima. A verdade é não-toda. Em outros termos, não podemos dizer que conseqüências o estupro contra a criancinha de oito anos terá em sua vida, pois isso dependerá das próximas coisas a acontecerem. Em segundo lugar, quando fazemos remontar o sintoma neurótico da adulta até a cena de seu oitavo ano, não estamos dizendo ser essa a sua causa, mas o ponto de partida de uma linha sobredeterminada cujo conjunto apenas, somado ao non-sense do gozo, é capaz de dar uma explicação para um sintoma. Altere-se algum elemento desse conjunto, e terás uma alteração no sintoma.[9]

Isso impossibilita qualquer assertiva do tipo: “tal evento terá tal conseqüência”. Impossibilita também que se universalize causas e conseqüências, pois a psicanálise se faz no particular. Que sempre voltemos ao complexo de Édipo, qual o problema? Os físicos sempre voltam aos átomos. Mas a minha experiência edípica é diferente da sua, leitor, e nisso, o que me determina, é diferente do que lhe determina. O que vale para ti, não necessariamente vale para mim. Temos aí a psicanálise radicalmente falsificada.[10]

Pode-se ainda exigir a “experiência”, no sentido da empiria. Mas, novamente, devemos questionar: como repetir experiências, onde está aberto o campo do sentido, visto que num segundo momento, como já foram acrescentadas novas coisas à vida do sujeito, não teríamos mais exatamente o mesmo sujeito? Há empiria em psicanálise, mas essa verificação deve ser feita na própria pele.

Mas nem todos crêem que a ciência caminhe de braços dados com a razão. Para alguns, é num movimento social profundo, onde a razão só pode ser coadjuvante, que as grandes “revoluções” se dão.

O termo paradigma já conquistou uma certa popularidade, e faz-se dele bom ou mal uso a todo momento. Na interpretação histórico-sociológica da evolução da ciência do Sr. Kuhn, onde o termo tem um lugar de destaque na interpretação dos grandes movimentos desta, o exemplo mais claro é o da assim chamada revolução copernicana -tão querida metáfora – no que ali passa-se de um paradigma geocêntrico para um outro, heliocêntrico. Toda a questão, no que interessa a um psicanalista, reside justamente no que está implicado nesse passe. Mas não é por aí que abordaremos seu pensamento.

Interessa-nos que para o Sr. Kuhn, a ciência caminha de dois modos. Um deles, chamado de “ciência normal”, é aquele onde um paradigma estabelecido, isto é, em nossos termos, um Outro que constitui uma comunidade científica, sustenta um período de pesquisas e acúmulo de resultados, onde inclusive o paradigma pode ser aperfeiçoado. Mas volta e meia se instala algum mal-estar, uma crise, um conflito. Seja porque os fatos não cabem no paradigma, seja ainda por questões externas ao campo restrito da pesquisa. O conflito faz surgir tentativas de respostas, e dentre estas surge, ou ainda poderíamos dizer, sobrevive, aquela que se constituirá como um novo paradigma para a comunidade em questão.[11]

O novo paradigma, mais que qualquer coisa, deve poder oferecer respostas àquilo que era explicado pelo paradigma anterior, assim como responder aos fatos que provocaram sua crise. Isto é, deve poder absorver uma soma maior de fenômenos em sua consideração. Resta ressaltar que um tal paradigma não se reduz a um texto ou a um manual ou método. Trata-se de uma “visão compartilhada”, de uma “ontologia latente”, na qual toda comunidade científica participa mais ou menos conscientemente, para usarmos expressões mais próximas do texto do Sr. Kuhn.

Ora, não é justamente isso o que observamos na história da psicanálise? Não foi justamente uma revolução paradigmática que operou Lacan? Seu pensamento pode conter as “descobertas” de Freud, Klein, Winnicott, Glover, etc. Mas o de Klein não pode conter o de Lacan, por exemplo. Há lugar para o objeto parcial no pensamento de Lacan, mas não há lugar para o objeto a no pensamento de Klein.

Tal discussão exigiria ser examinada mais detalhadamente, mas reservaremos isso para um outro momento. Por ora, admitamos que podemos falar de um paradigma lacaniano. Considerando os dois vetores acima mencionados, não nos encontraríamos agora próximos de uma nova “crise”, diante dos avanços neurocientíficos? O progresso da teoria psicanalítica não deve passar necessariamente por uma nova revolução paradigmática[12], onde possamos reunir os fatos da clínica aos fatos da neurociência? Não posso no momento fazer outra coisa que não deixar em aberto a questão. Estamos no limite.

A via-crucis

Referimo-nos acima ao que parece-nos estar relacionado ao mal-estar institucional da psicanálise, de alguma coisa deixada na sombra. Pois bem, o problema pode ser assim enunciado: “Jacques-Allain Miller, tu és prático, e sobre ti edificarei a minha escola. Estabeleça meu cânone e, em sinal de nossa aliança, eis minha filha amada, tome-a em matrimônio”.

Todos conhecem essa história e não a evoco aqui para criticar ou zombar de alguém. Se a formulo como tal, é porque não me pareceu haver melhor maneira de colocar o problema que é o nosso problema: o desejo. Mas antes de chegar aí, devemos observar alguns fatos.

Em primeiro lugar, há um notável parentesco entre o saber da psicanálise e a antropologia bíblica, onde o primeiro parece ser o avesso da segunda. Destacaremos disso apenas alguns elementos principais[13]: note-se que de ponta a ponta temos no texto bíblico um saber sobre a relação do homem com Deus, e reencontramos aqui o sujeito e o Outro. Veremos também na Bíblia que tal relação é marcada por uma falta original, um pecado, cuja conseqüência é uma perda para o homem, onde reencontramos o objeto perdido.

Poderíamos ir ainda mais longe por aí, reconstruindo toda a antropologia. Mas são duas as ressalvas: por um lado, em psicanálise não esperamos reencontrar o objeto perdido, nem aqui, nem no além. Perdido está. Perdido, na verdade, nunca foi. Mas crê-se nisso. Por outro lado, se a religião, para dar conta da experiência, precisa cingir seu Outro em dois, e dar piruetas mil para escapar ao maniqueísmo, para dar conta de todo um resto, uma sobra, um non-sense então chamado de mal e atribuído ao que poderíamos com toda licença poética chamar de “recalcado de Deus”, na psicanálise estamos em cheio no problema do mal, ligado, desde os primórdios do mito freudiano, à père-version[14], para darmos uma amostra dos “neologismos” lacanianos.

Pois bem. Eis aí algo que a psicanálise deve à teologia. E também às heresias. Estamos dizendo que a psicanálise então se constitui como uma religião, e suas instituições como uma igreja? Obviamente que não, mas alguma coisa dessa ordem se faz passar.

Voltemos ao que dissemos acima sobre o desejo. O sujeito religioso, o que o define, em suma, é que onde isso era, ao invés de advir o eu, advém Deus. Isto é, o sujeito religioso é aquele que esconde seu desejo por trás do suposto desejo de Deus. Torna-se assim cativo desse desejo. Só encontra as vias do seu desejo, passando pelo desejo de Deus. Ora, estar cativo do desejo de um Outro é precisamente o que define a neurose, que, quando organizada coletivamente, tem sempre a aparência de uma religião. A psicanálise só pôde dar um passo mais significativo adiante quando Lacan a libertou do desejo de Freud, fazendo surgir o desejo do analista. Mas será que Lacan a libertou do seu desejo?

Não nos parece que sim, e talvez seja justamente o fato do psicanalista não poder deixar de percebe-lo, mas de estar impossibilitado de dize-lo, perpetuando-o, por razões de recalque, associado ao fato de portarmos um saber já muito marcado pelo saber bíblico, pois não podemos forcluir o nome-do-pai, que empreste à psicanálise tal característica e conseqüente mal-estar. Eis uma hipótese inicial, onde deixaremos as coisas.

Cumpre perguntar: teríamos aí uma vantagem ou uma desvantagem?

Sem concluir: a psicanálise entre a ciência e religião

Teremos que deixar quase todas as nossas questões em aberto. Não era nosso objetivo aqui responder aos problemas, nos contentando apenas em poder formulá-los. Assim, considerando o que foi dito, talvez possamos então formular aquele que nos parece o principal deles: qual o estatuto epistemológico da psicanálise? Em que lugar ela se encontra?

Como vimos, há nela uma inspiração científica, mesmo um ideal. A qualificação popperiana de pseudo-ciência nos parece dever ser refutada. Que a psicanálise não seja uma ciência, isso depende mais do conceito de ciência do que das verificações e do rigor no campo próprio da análise. O que se pode dizer, sem dúvida, é que ela não é sem relação com a ciência. Se pensarmos na formulação lacaniana de que a ciência busca simular no imaginário o real pela intervenção do simbólico, e a religião faz da imagem do real um símbolo (RSI x RIS na seqüência de apreensão do real), então a psicanálise estaria mais para o lado da ciência. Ou seja, o real da experiência analítica é para ser apreendido pelo simbólico, e não pelo imaginário.

Mas por outro lado, vemos que a ordenação e a estrutura do real em questão é tributária de toda a tradição que faz parte da matéria do pensamento dos sujeitos em questão, isto é, da religião. Não há outra razão para que alguns nos qualifiquem de “animistas”. E diante dos ataques dos porta-aviões da ciência, só com arcos e flechas podemos nos “defender”, mas não sem antes acrescentar um pouco de veneno as pontas das flechas.

Enfim, a psicanálise se enraíza na ciência e na religião, mas não se confunde com qualquer uma delas. Nossa tese, e aqui só podemos enuncia-la, é que a psicanálise está exatamente a meio caminho entre a ciência e a religião, isto é, entre um significante e outro, justamente onde devemos estar, para encontrarmos o sujeito.



Notas

01- Eis uma amostra daquilo que algumas horas diante de um “Discovery Channel” pode suscitar à imaginação de um homem. Mas não só desse homem que aqui escreve, visto que qualquer um pode facilmente verificar que a imaginação daqueles que inspiram tal ponto do presente escrito é fascinantemente mais “turbinada”. Passarão ao ato [voltar].
02- Que não me censurem pelo uso de um termo que evoca uma aparentamento entre humanos e bovinos. Faço uso apenas de minha licença poética e necessidades de efeito de sentido. Aliás, que censurem então aqueles que nos administram a partir de um órgão que se auto-intitula “Ministério da Fazenda”. Ora, se se trata de uma fazenda, nada mais “natural” do que vivermos em currais [voltar].
03- É claro, o biólogo pode muito bem se ocupar do “ecossitema”. Mas uma ressalva deve ser feita: desde que esse ecossistema seja mudo! (Ver adiante) [voltar].
04- Conseqüência epistemológica da famosa navalha do abade William de Ockham. Mas pode-se ver facilmente, por exemplo, no universo dentro da casca de noz, que, na prática, é necessário muito preparo para entender as “simplificações” [voltar]
05- Vejo-me na necessidade de pedir desculpas aos colegas de profissão que porventura se incomodem com alguns dos termos que uso no presente artigo. Não que não esteja a par de toda a crítica que para nós tem seu fundamento quando situamo-nos em nosso ponto de ação, mas a intenção de fazer eco também nos ouvidos pouco habituados ao discurso psicanalítico me força a simplificar às vezes. Que não se faça relevo; como dizem as personagens hollywoodianas dos filmes de ação: “alguém tem que fazer o trabalho sujo!”[voltar].
06- Deve-se notar que a idéia de um “tempo perdido”, além de nos remeter à neurose obsessiva, deve ser contextualizada. Se a psiquiatria norte-americana um belo dia, por falta de tradição, resolveu se tornar “freudismo” de segunda, de “moda européia”, que não culpe a psicanálise por seu tempo perdido. Culpem-se a si mesmos! Na verdade a psicanálise foi quem mais perdeu tempo com isso [voltar].
07- Embora tal forclusão talvez só possa ser restrita aos manuais do segundo grau ou àquelas grandes sínteses que são sem dúvida o suficiente para o trabalho operário de um cientista. Talvez não seja justo falar assim do que podemos chamar “os grandes clássicos”, pelo menos os antigos, pois ali nada se explica sem uma referência a Deus, por exemplo. Ou, ainda, talvez tal forclusão seja um fenômeno apenas da ciência moderna. Não está claro [voltar].
08- Poderíamos complicar isso muito mais, considerando nossa relação com a linguagem, inquirindo sobre o quanto a própria definição de um planeta depende dessas elipses em torno de estrelas, portanto, um fato de linguagem. O objeto planeta é anterior ao nome que lhe damos, mas com o nome que lhe damos, cremos quase no contrário. Popper tem aversão aos problemas verbais, mas essa é a fonte da maioria dos equívocos que a própria adoção da matemática pretende resolver. Porém a matemática é muda [voltar].
09- Não seria justamente numa anestesia do gozo que interviria a psicofarmacologia? [voltar]
10- Querem mais? “Uma injunção ao nome do pai tem muito mais probabilidade de provocar um surto psicótico em sujeitos de estrutura psicótica do que em sujeitos de estrutura neurótica” (desde que esteja clara a diferença entre um surto e uma estrutura): bastam algumas estatísticas. Ou ainda, “os sintomas neuróticos são a solução de um conflito intrapsíquico entre forças pulsionais”: as neuroses de guerra levantam dúvidas a esse respeito. Embora não se possa negar que nelas os conflitos possam bem “pegar uma carona”. Poderíamos ir muito longe com isso [voltar].
11- O leitor atento verá que já servimo-nos de Kuhn acima em nosso texto [voltar].
12- Talvez estejamos também abusando um pouco do termo kuhniano. A rigor, já que há um grande paradigma pairando no ar e que reúne toda a comunidade científica da qual os psicanalistas estão excluídos, talvez só poderíamos falar de paradigma depois do próximo passo… ou do próximo [voltar]
13- O leitor interessado pode se referir, para maiores esclarecimentos, a minha dissertação de mestrado, intitulada “De um Deus que não seria o do semblante. A religião, de Freud a Lacan: análises e ressonâncias”, defendida no ano de 2001 na PUC de São Paulo [voltar].
14- “Pai-versão” ressoando com “perversão”[voltar].

Um Comentário leave one →
  1. 07/06/2011 3:16 am

    Quanto mais eu leio sobre a psicanálise mas eu amo.

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